Campo doos padres SC!

O CÉU COMO TROFÉU
 Parodiando o Mano Terra que se inspirou numa imagem cinematográfica captada pelas lentes nervosas e ao mesmo tempo sensíveis do consagrado fotógrafo e tradicionalista Ingo Penz "Quero a Honra, por troféu, de entrar a cavalo no céu.." A lapidar expressão em sua raiz extraída de uma foto de cavalgada de reconhecimento rumo a um dos pontos mais altos do Sul, o Campo dos Padres, entre Bom Retiro e Urubici, dois municípios catarinenses em cujo solo brotam as nascentes do Rio Itajaí-Açu e os afluentes do Rio Uruguai (Pelotas e Canoas) que cai mansinho na Bacia do Prata. Mano Terra cunhou outras expressões para ilustrar uma exposição fotográfica do amigo Ingo Penz, retiradas do cotidiano desta cavalgada.
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"Vale do Tesouro"
Campo dos Padres
Bom Retiro/SC
Estou aqui não para falar daquela que já teve uma segunda e uma terceira, mas sim da última cavalgada ocorrida em fins de dezembro de 2000. A época não tem importância porque naquelas paragens o tempo é apenas mera referência, porque ali a vida segue seu tranco sem pressa, senão pelas pitorescas noites frias em pleno e contrastante verão. E é nesse cenário de montanhas, neblina, aparados, trovoadas, granizo, animais selvagens, aves, muitas aves, noites frias, camaradagem, churrasco e trago que se desenrola a aventura narrada pelo próprio Ingo Penz. A riqueza dos detalhes, às vezes repetitivos, reforçam o lúdico de uma aventura que poderia muito bem ser a aventura de cada um dos leitores, mas não, é o espírito de liberdade dessa gente a nos ensinar o amor por uma causa, cavalgar pelo prazer de cavalgar. A jornada tem um significado maior ainda se levarmos em conta e ele é de um significado extraordinário, a presença da juventude na comitiva. Alguns ainda meninos como é o caso do Franklin. Desde cedo vem seguindo os passos do pai Ingo nas cavalgadas e já de olho nos lances fotográficos, paixão para a qual certamente está sendo levado, naturalmente.
Deixamos então a prosa seguir o curso da tropa e vez por outra estaremos colocando alguma palha, não para corrigir e sim para enriquecer a narrativa clássica do compadre Ingo Penz, que tem no seu outro compadre, o João, a companhia perfeita para esta cavalgada tão especial. Vamos a ela.
27.12 - A alvorada foi às 6h na Fazenda Reunidas Campo Novo de Bom Retiro-SC. O dia amanheceu com céu limpo, quente e abafado (sinal de chuva para o dia). Os animais para a cavalgada (8 cavalos e 10 mulas) estavam sendo preparados com encilhas e bruacas (quatro no total, duas para líquidos e duas para sólidos). Durante os preparativos alguns degustavam o chimarrão, outros, cervejas geladas, pão de queijo, lingüiça, ovos fritos e outra canha para refrescar.
Na frigo-mula (bruaca dos líquidos) foram acondicionados 12 litros de "Kachaça" dos alemãozinhos (13 anos de barril), 10 litros de vinho colonial e o espaço restante foi completado com latinhas de cerveja, também foram alguns refrigerantes para os menores de idade. Na bruaca dos sólidos foi um leitão assado (preparado na véspera pelo Juarez e o compadre João) mais costela, granito, frescal, erva mate, arroz, café, açúcar, sal, banha, pão, queijo e lingüiça defumada. Nas mulas de garupa cada uma levava porções de "penosas na farofa", preparadas pela comadre Márcia (esposa do capataz e compadre João). Enfim, cavalos encilhados, tudo pronto para a famosa fotografia para a posteridade. Mais algumas cervejas geladas goela abaixo e partimos às 8h10min em direção à localidade de Paraíso da Serra. Cruzamos o Rio Campo Novo e na seqüência, por atalho abandonado, o Morro do Paraíso (ou seria Serra do Paraíso), que separa a localidade de Campo Novo e Paraíso da Serra. A trilha deu trabalho, os facões trabalharam bastante e às 9h15min resolvemos fazer uma "parada técnica" no meio do mato para descanso dos animais. Aproveitamos para sacar umas latinhas do frigo-mula!
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Campo dos Padres
À esquerda Morro Boa Vista
com 1827mts de altura
Retomando, começamos a descida do morro às 10h em direção à fazenda sede dos Phelippe, lindeira das Fazendas Reunidas Campo Novo. A temperatura aumentava e o céu começara a nublar. Alguém tinha escutado na rádio de São Joaquim a previsão de chuva de granizo à tarde para aquela região, o que alegrou a todos pois era garantia de matéria prima para reabastecer o frigo-mula e gelar nossas cervejas. Resolvemos apressar o passo e às 12h10min chegamos na 1a. porteira. Estávamos cavalgando por entre uma reserva de araucárias, e numa boa sombra, uma canha para espantar o calor, alguns preferiram água de uma fonte geladinha. Reapertamos as encilhas (atividade necessária e corriqueira) e nas cangalhas, fomos em frente até chegarmos no tal de "motor" (antiga Serraria) já na encosta da Serra da Anta Gorda do Campo dos Padres. Começamos a desencilhar os animais e às 13h20min avançamos rapidamente no frigo-mula para conferir o gelo e dê-lhe latinha para molhar a goela. Foi feito fogo com nó de pinho, enquanto o granito (maçã do peito, com batata-doce, me faz lembrar os pagos de Itaqui, como diria o meu amigo Telmo de Lima Freitas) passava, degustamos o restante das "penosas na farofa", acompanhado de um e outro gole de canha. Os animais pastavam ao redor do galpão! E ainda avançavamos no leitão assado com pão amassado! Que rima! Arapongas, gralhas, inhambus e outros pássaros davam seu sinal. A previsão se confirmou, às 14h30min roncou trovoada por perto.Após a bóia, novamente começamos a encilhar os animais, e outra vez a dificuldade para colocar cangalhas e bruacas nas mulas!
Iniciamos a subida da Serra às 16h numa estrada antiga onde hoje o trânsito é apenas para animais (ou a pé). Os trovões e relâmpagos faziam a festa ao redor. Chovia torrencialmente e as capas Ideal, da "Renner", mostravam sua eficácia. Lentamente fomos subindo por entre pedras e "peraus" já com a chuva nos alcançando e trovões que pareciam estar a uns 10 m das nossas cabeças!
Durante a subida, muitas "paradas técnicas" para reapertar encilhas e cargueiros, sempre aproveitando para conferir o gelo no frigo-mula (do granizo nem sinal). 17h20min, mais um topo vencido e avistamos à nossa frente o morro Boa Vista (1827 m), ponto mais alto de Santa Catarina e um dos mais altos do Sul e à nossa direita a furna do leão baio da Fazenda Campo Novo (a fazenda é cheia de furnas/grotões). Seguimos em frente e as 19h 50 min chegamos na nascente do Rio Campo Novo, principal afluente do Rio Canoas (um dos principais afluentes do Rio Pelotas que depois é o Rio Uruguai). A chuva passou e o sol brilhou em seguida. Era horário de verão, no momento em que a sombra da gente se torna quilométrica, onde o sol se põe somente às 21h. Aproveitamos para fotografias da 1a. cascata do Campo dos Padres e também do Vale do Tesouro.
Todos estavam eufóricos. Enfim cavalgando no famoso Campo dos Padres de tantas lendas e histórias. 20h 30min, nos aproximamos da Fazenda São Miguel, onde o capataz Roberto nos aguardava. O dia continuava claro, os animais, após se ambientarem com o clima no galpão, foram soltos no potreiro. A ovelha prometida pelo Sr. Jair Phelippe foi carneada pelo Raul e tio Neno, enquanto o Nivaldo preparava o chimarrão, o Juarez estava com as lidas da cozinha com arroz e frescal, ponta de costela no forno do velho fogão à lenha. A temperatura tinha baixado para uns 10o e estávamos à altitude de 1.240m (medição feita pelo pessoal da UFSC) oportunidade para uma degustação de vinho colonial de Ascurra, mais uns nacos de lingüiça defumada do Vale do Itajaí, com uns pedaços de queijo da serra; uma combinação perfeita, embora alguns insistissem na canha e cerveja (agora já sendo resfriadas num cocho de água corrente). Aos poucos todos estavam ao redor do fogão e começaram os causos. Velas e um lampião de gás, luz que inspirou o capataz Roberto a declamar "BOCHINCHO" do saudoso Jaime Caetano Braun que emocionou e arrepiou a veia gaúcha que corria nos presentes! Aplaudimos pela exatidão e detalhes. O jantar foi servido às 23h30min.
Houve os respectivos desmaios com o sono e cansaço lá pela meia hora da madrugada.
28.12 – 6h alvorada festiva com gaita de boca, enquanto rolava um chimarrão irmanado, e novamente alguns preferiram cervejas (pão líquido). Resolvemos encilhar alguns animais para um reconhecimento mais de perto no Vale do Tesouro. Encontramos uma gruta escavada na pedra, mas do tesouro nenhum sinal! No lado leste, fomos ver uns aparados da Serra da Boa Vista (Serra Geral) emolduradas pelas nuvens, paisagem de primeira, onde vários clics foram feitos! Quando voltamos para a fazenda, o compadre João lidava com o fogo e no espeto havia carne de ovelha, leitão, frescal de costela acompanhado de pão, vinho, cervejas e refrigerante.

"... Jesuítas em fuga perante o massacre dos bandeirantes. Jesuítas escondendo nas taipas, das estâncias dos Campos de cima da serra, os tesouros de suas igrejas ricas, saqueadas pelos iconoclastas paulistas..."
"...Tropilha de mula, tangidas por índios guaranis, carregadas de bruacas com vasos sagrados, imagens, dobrões de ouro, o tesouro da república comunitária guarani. Ouro em abundância e prata às pampas.".
"...E a tropa de mulas, com vasos sagrados e bruacas repletas de ouro, vai subindo as nascentes do Rio Pelotas..."
Extraído do livro O Tesouro do Morro da Igreja - João Leonir Dall’Alba
14h começa a encilha do restante dos animais e as 15h 10 min deixavamos para trás o nosso primeiro pouso. Nosso destino o Morro Boa Vista (1827m). Vencemos algumas lombas e avistamos no lado oeste o Morro Bela Vista Suizoni (1823,45 m e o 2o. ponto mais alto do Sul, o 3o. é o morro da Igreja de Urubici com 1819m do radar da Aeronáutica, distante cerca de 60km linha reta que controla todo o tráfego aéreo do sul do Brasil. Na nossa frente, a uns 300 m, direção sul, o imponente Morro Bela Vista. Comecei os clics, e de repente veio uma nuvem do lado leste e a visibilidade ficou reduzida a uns 15m. O Nivaldo alertou que em seguida começaria a chover. Desistimos de escalar o morro mais alto do sul. A temperatura e a umidade eram favoráveis à chuva, em 30min (segundo o especialista Nivaldo, o morador do local), roncou a trovoada ao redor das nossas cabeças, relâmpagos faiscavam e davam uns estalos que parecia a subestação da Celesc aérea. Resolvemos seguir em frente e a tropa ia seguindo enfileirada (alô Nilo Bairros de Brun e Léo Almeida, música vencedora da Sapecada) agora cavalgando nas nuvens, usamos as mulas como guias, conhecedoras das trilhas destes campos, atravessamos mais um grotão. E mais uma nascente do Rio Pelotas/Uruguai. Não perdemos a oportunidade e bebemos desta água. Como previsto começou a chuva. A cena era interessante, cavalgando nas nuvens com chuva forte. Sempre costeando o "perau" (precipício, despenhadeiro, itaimbé do tupi, ita pedra e aimbé, áspera. – Livro Qüeras de Márcio Camargo), da Serra da Anta Gorda chegamos na fazenda da Tia Tê (Terezinha), já noutro lado da Serra em Urubici, logo em seguida estávamos no galpão do Seu Willy Picolli, para uma outra parada técnica e uns goles de vinho com bolacha e lingüiça. O relógio marcava 16h30min. O pouso estava previsto na fazenda dos Bonin em Urubici, ainda no Campo dos Padres. Não foi possível pois o agüedo (grande quantidade de água) que caiu lá pelas 18h impediu nossa passagem num afluente do Rio dos Bugres. 19h30min continuava chovendo forte e chegamos na fazenda do seu Abel Feiber, galpão conhecido nosso de pousos anteriores. O capataz Tio Léo não estava, o que lamentamos muito, pois o homem sempre tinha grandes causos sobre os pumas que rondam a fazenda. Resolvemos pernoitar ali mesmo e para espantar o frio, (temperatura de menos 10°), o puma e secar nossas roupas, foi feito fogo que aproveitamos também para assar carne de ovelha. E dê-lhe vinho para esquentar o frio. Após a bóia, e os relatos do dia, cada um se recolheu nos seus respectivos pelegos, isso lá pela meia noite! A história do puma fez o Marciano ficar encarregado no primeiro quarto de ronda para avivar o fogo, o Nelson ficou com o segundo turno da vigília.
29.12 – Às 6h30min já tinha gente avivando o fogo. Continuávamos nas nuvens e com uma garoa fina a temperatura tinha subido e o tempo abafado, por isso em vez do café c/ pão optamos por cerveja com carne! Arruma tralha, encilha, bruacas no lugar. Seguimos em frente e as 8h40min após passar o afluente do Rio dos Bugres (agora baixo) cruzamos na fazenda dos Bonin para uma rápida prosa com o Sílvio, proprietário. Fomos costeando o perau do Rio dos Bugres e às 11h a garoa deu uma trégua e após subirmos uma lomba, chegamos num descampado e avistamos novamente a fazenda Campo Novo, na furna da jacutinga.
Cavalgando no chapadão, às 12h houve uma parada para conferir o frigo-mula, após o balanço geral, a unanimidade foi que deveríamos aliviar o peso das bruacas, ali mesmo, já na fazenda do Elano. Após uns líquidos e sólidos seguimos o rumo e às 14h30min avistamos lá embaixo a localidade de São Pedro (Urubici).
15h30min novamente estava se formando a trovoada no Campo dos Padres. Passamos por um cemitério de campanha e seguimos por umas trilhas de gado num baita vassoral, dando muito trabalho aos facões. Logo chegamos na antiga estrada abandonada e de repente, ali estava o rastro de um leão baio (comum na região), que emoção! A água ainda estava toldada, sinal que passou aí não fazia muito tempo, e que o mesmo deveria estar por perto. No mesmo instante nos deparamos com uma vaca; constatamos que a mesma recém havia dado cria, procuramos pelo bezerro por toda parte, mas apenas vestígios do leão e concluímos que o bezerrinho serviu de almoço ou seria café da tarde, para a suçuarana (onça amarelo-avermelhada, puma, onça-parda). Logo em seguida encontramos rastros de veado e cateto, sinal de equilíbrio ecológico. Comemoramos o fato com tragos de canha e a partir daí, com certeza que o puma estava bem alimentado, e ter-nos poupado para o seu jantar. Seguimos adiante, leves e soltos!
16h começamos a descida pelo lado sul do Campo Novo com o compadre João abrindo picada numa antiga trilha abandonada e dê-lhe facão. Após 50min de descida, adentramos na fazenda do Tio Chico, uma visita rápida na casa do Tio Neno, para degustar uma canha diferente. Durante a degustação, lá vem água novamente com as capas sendo abertas. Seguimos em frente e na casa da Marli e dona Laura, irmã e mãe do compadre João, nos ofereceram café com bolachas. Também aproveitamos ali mesmo a oportunidade para degustar uma pinga de garrafão, vinho de Braço do Norte (alô compadre Wlademir Casagrande). "Mas bah, canha loco d’special siô!"
Ao chegarmos na casa do compadre João, ponto de partida, a comadre Márcia nos aguardava com muita cerveja (agora bem gelada). Antes de apearmos, fotografias do grupo que por uns dias cavalgou nas nuvens do Campo dos Padres.
O jantar era composto de arroz temperado, feijão tropeiro, pernil de porco assado, galinha ensopada e canha da boa, seguimos noite adentro com gaita de boca e violão, já prevendo a próxima aventura que mexeu com o coração de todos. (Ingo Penz)
- Esta é uma aventura por demais especial. Quiçá muitos de nós pudéssemos ter o privilégio de tal façanha. Penso logo como eu administraria o stress de ficar distante desse agito da vida urbana e da agenda cotidiana.
Resta ao compadre Ingo tornar a cavalgada um pouco mais light e aí, quem sabe, poderia encará-la e ter o sabor da sua narrativa no instante que a emoção se desenrola. Que tal?

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